A Anatorg no cenário internacional de mobilizações torcedoras 

por Rosana da Câmara 

Em 2015 participei de um colóquio que reuniu especialistas de vários países dedicados ao estudo das torcidas de futebol. Após a apresentação sobre a constituição do movimento que levou à fundação da Anatorg, um pesquisador francês indagou, dirigindo-se aos demais: “como o Brasil conseguiu?”. Seu tom de surpresa tem fundamento. Afinal, um feito dessa natureza não é tarefa fácil, especialmente se considerarmos as dimensões continentais e as relações de rivalidade que têm caracterizado o relacionamento entre torcidas organizadas no país. Por outro lado, países que pareciam reunir naquele momento condições propícias para uma coalização nacional, não lograram êxito, como é o caso da própria França. A formação da Anatorg (que na ocasião do colóquio ainda não tinha completado um ano de existência) envolveu um conjunto complexo de situações e diálogos entre atores sociais situados em diferentes esferas. Trataremos dessa questão mais à frente. Por hora, nos voltemos para o cenário internacional. Estudos revelam que os movimentos torcedores apresentam uma nova face desde as primeiras décadas dos anos 2000 (*). Formulando reivindicações no espaço público, mostravam-se dispostos a defender a sua visão do futebol. Constatava-se que um número cada vez maior de fãs não se contentava mais em torcer e apoiar seu clube, e se organizava para defender seu estilo de torcer e seu direito ao pertencimento no espetáculo futebolístico. Se regulamentos e leis ampliaram os mecanismos de controle e monitoramento do comportamento do torcedor, eles contribuíram decisivamente para que uma fração importante tomasse consciência da existência de interesses comuns e de que, para defendê-los, seria necessário dar trégua nas hostilidades que marcavam suas interações. Nesse sentido, as distintas modalidades de manifestação dos grupos ultras, em várias partes do mundo (e essas novas formas de ação são indissociáveis de um modelo de torcer “ultra”- influenciado pela experiência italiana dos tiffosis), evidenciam formas singulares de engajamento e resistência à mercantilização do esporte e ao conjunto de dispositivos regulamentares, legislativos, judiciais e policias de repressão, tanto em escala nacional quanto internacional. Retomando o repertório clássico da ação coletiva, dão início a mediações na arena pública para se posicionar frente às políticas públicas que lhe são destinadas, afirmar sua identidade “ultra” e dialogar com as autoridades.  Assim, os anos 2000 presenciam a eclosão de manifestações e contestações coletivas em diversos países que a despeito das facetas locais, regionais e nacionais, possuem um repertório comum: a defesa da festa nas arquibancadas, da pirotecnia nos estádios, a crítica aos altos preços dos ingressos e à repressão policial. Do ponto de vista de uma sociologia das mobilizações, a questão central é: que lógicas conduzem as pessoas a se reunir para em seguida se unir em torno de um projeto comum? Disponibilizando seu tempo e dando algo de si se engajam no mundo associativo, se solidarizando em torno de eventos que transcendem, em alguns casos, o próprio universo do futebol, como podemos observar nos exemplos que se seguem. 

Em abril de 2011, na Suíça, a retomada do clube Neuchâtel Xamax pelo investidor russo Bulat Chagaev desencadeou uma mobilização popular impulsionada pelos ultras, que se articularam a partir das interações em fóruns de discussão na internet. No Egito, os grupos ultras Ahlawy e White Knights se envolveram no processo revolucionário que se desencadeou entre janeiro e fevereiro de 2011.  Na Croácia, a torcida Bijeli Andjeli do NK Zagreb desenvolve estratégias de legitimação para lutar contra a direção do clube dentro e fora dos estádios. Além disso, participa das ações da Football Against Racismin Europe (FARE), do Mundial Antirracista, ou ainda como membro da Football Supporters Europe (FSE). Em Bucareste, em 2012, torcedores atuam nos protestos ocorridos contra a classe política romena e as instâncias dirigentes do futebol. A Lei 4 que restringe o encontro de torcedores foi denunciada como anticonstitucional, contribuindo para mobilizar os torcedores. Em 31 de maio de 2013, milhares de torcedores dos três maiores clubes de Istambul-Turquia (Besiktas, Galatasaray e Fenerbahçe) se organizam através de uma rede social para defender o Parc Gezi, ameaçado por um projeto urbanístico do governo, a partir da coalizão denominada Istambul United suspendendo temporariamente suas diferenças. Na Ucrânia em 2014 torcidas adversárias deram trégua em suas animosidades e concentraram todos os esforços pela unidade da Ucrânia se constituindo em uma das forças do Euromaidan, manifestações nacionalistas por uma maior integração europeia, iniciadas em novembro de 2013. 

A emergência de um movimento coletivo na França foi marcado pela criação de redes, conversas com a mídia, participação em seminários. O Livre vert du supporterisme, resultado do 1º Congresso Nacional de Associações de Futebol ocorrido em 28 de janeiro de 2010, no Stade de France, pode ser considerado um marco nas discussões sobre a elaboração de políticas preventivas na luta contra a violência. A organização do Congresso ficou ao encargo do Comité de Pilotage instalado em 2009, pela Secretaria de Estado. Sob a direção do sociólogo Nicolas Hourcade reuniu a Federação Francesa de Futebol, a Liga de Futebol Profissional, a União dos Clubes Profissionais de Futebol, os Ministérios do Interior e da Justiça, a Direção de Esportes da Secretaria de Estado, representantes das associações de torcedores e dirigentes de clubes, entre outros. No entanto, vários incidentes, em particular um conflito entre o Boulogne Boys e o Auteuil, que provocou a morte de um torcedor, levou à adoção de medidas excepcionais julgadas urgentes para conter a violência. Assim, decidiu-se dar uma pausa nos diálogos, após a elaboração do Livre vert. Enquanto a França não avançou no processo de criação de uma federação nacional, a Alemanha continua figurando como a principal referência possuindo várias estruturas coletivas. No Profans os torcedores locais estabeleceram uma forte relação de solidariedade definindo pautas comuns que orientam protestos simultâneos em todo o país. Por outro lado, a Unsere Kurve, fundada em 2005, articula os fanprojekte, projetos de assistência social aos torcedores dos clubes, que desempenham um papel central de defesa dos seus interesses. A cultura torcedora alemã se caracteriza pela atuação política, que inclui protestos nos estádios, a luta contra a repressão policial, contra os altos preços dos ingressos para visitantes, contra os jogos às segundas-feiras ou mesmo se posicionando conjuntamente a favor da interrupção dos jogos do futebol em virtude da pandemia do Covid-19. Voltemos à indagação do colega francês. Seu questionamento nos permite avaliar a importância e o protagonismo das articulações ocorridas aqui no Brasil. Sem dúvida, a fundação da Anatorg (que completará em dezembro de 2021, 7 anos de existência) projeta o Brasil num campo de discussões internacionais sobre as novas faces do associativismo torcedor. Trata-se de uma experiência inédita que simboliza o esforço de lideranças de torcidas organizadas para abstraírem diferenças e antagonismos que têm pautado sua história. A mobilização coletiva iniciada centrou-se na luta por direitos. Favoreceram esta articulação, seminários regionais e nacionais promovidos pelo Ministério do Esporte com as lideranças dessas agremiações. Mesmo que inicialmente o propósito fosse manter as torcidas organizadas em sua esfera de controle, temendo possíveis conflitos ou protestos durante os megaeventos (Copa do Mundo 2014 e Jogos Olímpicos 2016) a serem realizados no país, o fato é que esses encontros fortaleceram as trocas entre representantes do governo, órgãos de segurança, lideranças de torcidas, operadores do direito, pesquisadores. Nestes fóruns, integrantes de torcidas de vários estados puderam apresentar e defender suas visões acerca da gestão do futebol e expor sua discordância em relação ao Estatuto do Torcedor (2003/2010), pleiteando mudanças; comprometeram-se, ainda, com a busca de alternativas para diminuir os confrontos entre seus membros. Há ainda que se destacar dois outros fatores fundamentais para esta aliança nacional: as experiências no espaço público acumuladas pela Federação das Torcidas Organizadas de Futebol do Rio de Janeiro (FTORJ) originada em 2008,  e a viagem de intercâmbio à Alemanha, em março de 2014, a convite da Agência Alemã de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento Sustentável (GIZ), por encargo do Ministério Federal de Cooperação Econômica e Desenvolvimento (BMZ). O intercâmbio se inseriu em uma agenda de atividades no contexto do projeto Futebol para o Desenvolvimento (FpD), fruto da parceria entre governos do Brasil e da Alemanha e permitiu o contato das lideranças torcedoras participantes com a experiência do Projeto Torcedor (Fanprojekt) pautado no modelo sociopedagógico de prevenção da violência. Todas estas iniciativas e interlocuções frente à criminalização crescente das torcidas organizadas, em virtude de uma nova escalada de confrontos violentos, contribuíram para entendimentos e negociações.  Desse modo, a produção, circulação e troca de argumentos tornaram o III Seminário Nacional, promovido pelo Ministério do Esporte, em dezembro de 2014, estratégico para o anúncio oficial da entidade.  Esperamos que a Anatorg mantenha-se firme nos seus propósitos frente aos inúmeros e complexos desafios que se desenham na atual conjuntura.

Para saber mais:

  • BUSSET,Thomas; BESSON, Roger; JACCOUD, Christophe (éds.).  L’autre visage du supportérisme. Autorégulations, mobilisations collectives et mouvements sociaux. Berne, Suisse : Peter Lang As/Centre International d’Étude Du Sport, 2014. vol.6.
  • BUSSET, Thomas; GASPARINI, William. Aux fronteires du football et du politique. Supportérisme et engajement militant dans l´espace public. Berne, Suisse: Peter Lang As/ Centre International d´Étude Du sport, 2016. Vol. 8. 
  • HOLLANDA, Bernardo Buarque de, Jimmy Medeiros e Rosana da Câmara Teixeira (orgs.). A voz da arquibancada: narrativas de lideranças da Federação de Torcidas Organizadas do Rio de Janeiro (FTORJ). Rio de Janeiro: 7 Letras, 2015.
  • TEIXEIRA, Rosana da Câmara. A Associação Nacional das Torcidas Organizadas do Brasil na arena pública: desafios de um movimento coletivo. Bogotá, Antípoda. Revista de Antropología y Arqueología 30, p.111-128, 2018.  Disponível aqui.

(*) Embora nos concentremos aqui em situações que se desenrolam nas arenas públicas a partir dos anos 2000, esses processos foram gestados ao longo de décadas e precisam ser compreendidos levando-se em conta as dinâmicas sócio culturais, econômicas e políticas distintas.